terça-feira, 27 de outubro de 2009

salva.a.dor - litros.

Hoje as nuvens prometiam a volta do sol, mas houve apenas dó toda a manhã. E em notas chorosas, um rio desaguou em meu colo. A chuva no telhado e o som das lágrimas no assoalho me remetiam a um bolero qualquer, eram gotas minhas na enxurrada alheia. Emendei nossas canções como poças espaçadas que viram uma só quando a chuva engrossa, logo erámos dois corpos no vão da escada e um diluvio de dúvidas, uma orquestra de sentimentos. Pra onde a chuva leva os acordes de uma canção quando a canção chega ao fim? E o amor? Pra onde vai o meu amor quando o amor acaba?

{...} vê se tem no almanaque, essa menina,
como é que termina um grande amor
se adianta tomar aspirina
ou se bate na quina aquela dor
se é chover o ano inteiro chuva fina
ou se é como cair o elevador
{...}

Com a alma enxarcada e a garganta árida, fui secando uma a uma todas as suas ruas. Calada nos becos, fingindo rir nas encruzilhadas, sendo cais em todos os endereços. Mas, após ser colo, precisei tê-lo - porque de mim também fogem certas explicações.

{...}
me responde, por favor,
pra que tudo começou quando tudo acaba?

{...}

outro samba.



-

se era assim que você me queria
podando todo o meu tesão
exubero e te esqueço num dia:
VOCÊ NÃO ME BALANÇA MAIS, NÃO.


{...}



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

salva.a.dor - estio.

Estou em pleno estio, embora chova muito pras bandas de cá. Em meu entorno tudo é úmido, mas já não há preceptação - me resolvi por atrasar o verão! Fico deitada na cama investigando as nuvens de um céu limpo e anil. Questiono a chuva que não cai, as ondas roçando solenes às pedras, proponho a inquisição das águas. Só mesmo o fluxo de um rio que corre poderia macular minha areia seca ou, vendo por um ângulo menos árido, só na subida da maré eu poderia mergulhar fundo em mim. Não. Por hora apenas fito o oceano bem além, estou indiferente e distante da brisa marinha, das águas frescas e da maresia que corroi.



e eu digo, cá entre nós,
deixa o verão pra mais tarde'


~

sábado, 24 de outubro de 2009

Salva.a.dor em gotas

Programei para o sábado um texto de sol. Bem iluminado, nascente, com janelas amplas, cortinas esvoaçantes e vista para o mar. Não deu. Hoje o céu se fechou em copas exibindo apenas um modelito frio seco em tons de cinza, as ruas alagaram e eu nada tenho a ver com isso. Se hoje a Bahia resolveu se fantasiar de Londres, meu bem, devo dizer que nunca fui tão marítima, tão praieira. Bem lá no fundo, continuo em veraneio e saio por aí levitando a cima das poças.


e eu digo, cá entre nós,
deixa o verão pra mais tarde.

~

terça-feira, 13 de outubro de 2009

não era amor,

;
era melhor.
Da série 'Mercedes me entenderia'

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Veraneio II

Todo espetáculo permite improvisos, todo som é no íntimo um pouco jazz, toda roda abre espaço pr'um samba que reinvente os acordes. Por mais que se pense, ensaie, repita, não entra em nós (hipodermicamente) o conceito do pronto, do único, do impassível a transformações. Volto ao salão dessa vez de pernas nuas, desritmadas, livres ao sabor do som que se forma em vários pulsos, dedos, cordas e cordões. Cai sobre em mim, outra vez, aquele olhar de quem já esperava a vitória na aposta, a minha chegada, o meu pedido a ser decifrado e um não quanto ao 'devorar'. Ele volta ao seu canto e eu às minhas pessoas, minha graça, meus rodeios, meu prender e soltar de cabelos, mas cerveja não há mais. Como também já não há compromisso, nem vontade de mentir sobre horários, mãe ou chaves perdidas. Engulo meus receios enquanto ele se aproxima numa ânsia tranquila, como se me percebesse em mim qualquer distração ou a falta dos aneis, dos riscos na testa, do nome estampado na alma. Não corro dos seus braços, não fujo da sua boca e sua língua, treinada, me convida à vida. Impossível recusar.

Veraneio.

Todos os encontros como um roteiro a se repetir: a minha chegada percebia sem grandes embaraços e um jeito dele me olhar como quem ganha uma aposta, como quem avista um troféu, como se soubesse que chegaríamos eu e meu sorriso esfinge a dizer baixinho e bem devagar 'bom te ver'. Coreografadas, minhas pernas dentro do jeans desobedecendo a física, ora uma no lugar da outra, ora outra, ora uma, ora as duas nas pontas dos pés; as minhas mãos por entre o cabelo a deslizar, libertando, prendendo, pulsando no compasso que ditava a voz dele, os seus dedos tensionando as cordas. Cinema mudo, era entendimento mútuo. Eu rodopiando o salão em acenos, abraços e cortesias - a mulher ideal, como ele diria, 'bonita e bacana de cerveja na mão' - e ele lá do seu canto, observando meus passos, era estátua pro sopro de vida de qualquer mulher real. Lia-se em mim contentamento escrito em tinta fresca, que ainda borra se você tocar, enquanto ele dizia em alto e bons olhos que era eu. Ouvia-se das minhas palmas um orgulho frenético como se eu também dissesse ser ele ali, ser dele ali. E era então minha cabeça afoita visitando desculpas velhas... minha mãe, minhas chaves, o horário, meu compromisso... e eu escapolia dos seus braços como se de molho em sabão. Ele insistia. Língua treinada, rebatia meus argumentos como um convite à vida. Eu negava. E era a minha partida pecebida com leve pesar e um jeito dele de olhar pra longe como quem chega em segundo, como quem perde por décimos, como se soubesse que iríamos eu e meu sorriso esfinge a dizer alto e mui clarito
'nao se atreva a me olhar, rapaz'.

domingo, 4 de outubro de 2009

é.

.

(pra ser perfeito)

BASTA SER.
mas não BASTA SER agora.

~

sábado, 3 de outubro de 2009

Farsa Pré-Datada.

Tenho vivido de suposições plenas, certezas hipotéticas. Esse texto é, por exemplo, mais um compendio de pequenos atos teatrais que eu concluo dentro de um ônibus, de volta pra casa. E é então que eu descubro que tudo sempre esteve a um passo largo, a meros metros de mim. Tudo logo toma outra forma, pinta-se o mundo de outras cores - um tom indefinido, que chega sempre muito perto do azul mas é ainda meio cinza pra colorir o céu. Nada tem sido mais amargo que a quasificação das coisas. Se a mim fosse permitido o retrocesso, se houvesse um modo de recolher o já vivido e guardar de volta na ampulheta o tempo que roguei ao vento, se eu podesse voltar à largada, aí sim, eu estaria a milimetros de cruzar a linha de chegada, de ser inteira fogos de artificio, eu estaria no podium outra vez. Porém, e isto é o que me assusta, leio as últimas palavras redijidas e não me encontro. Assusta-me isto que me possui enquanto escrevo, atormeta-me o leque de possibilidades que dou aos que ousam me interpretar. O medo de não ser o que sou me invade pelos poros e s[o não toma conta de mim porque já há quem o faço diariamente, em grande parte do dia. Algo além de mim me segue e escreve aqui, um eu-lírico continuo que é maior que o autor. Eu receio que um dia isto passe a ser quem sou e então complique mais ainda o que não tem sido simples ou natural. Penso que tenho escrito {e bebido e falado e beijado e ****** e respirado} como um personagem, ou então sou eu que é assim e farsa é todo o resto {?}


{outro} Texto Submerso

Texto Submerso, o primogênito.

Há qualquer magia em voz e violão que me ergue além do chão que piso, fato. E, quando estou emersa no azul do céu, as palavras passam como uma brisa mansa - brincam com meus cabelos, fazem dançar minhas saias e eu não me preocupo em aprisioná-las. Nunca pretendi decodificar versos, metáforas, madrugadas líricas. Eu não sei realizar o que é fantástico. Porém ontem, quando eu me resguardava de certas canções, uma voltou a me bater. Dilacerando todas as minhas vãs certezas, tudo que eu arquitetei sobre estar além deste ou daquele amor. Ontem, ao som de guitarras destorcidas, meus pés voltaram ao chão e as palavras me enxarcaram pra dizer que sou eu um aquário. E, como um peixinho beta, você há de viver em mim sempre sozinho. Não há espaços para outros seres ou espelhos e, tendo eu todas as tuas cores, o que me faltará?


_____________________________
Te amo.
Te amargo. Te amalgo. Te amarro.
Te alimento das coisas de mim.

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Os Cegos do Castelo.

Bocas são atrativos banais, orelhas me causam repulsa e os narizes, a mim, não fedem ou cheiram. Porém - me desculpem os muito vesgos - olhos são essenciais. Não me interessam em absoluto os rapazes que carregam duas lápides na face, os que já perderam o viço, que se escondem em lentes escuras e os usuários de colírios diet. Me encantam os claros e transparentes - sem preconceitos ou preferências quanto à coloração, basta que através deles eu enxergue uma alma e reflita a minha própria como num espelho bacará. Me entorpecem os que, como labirintos ou caleidoscopios, me abrem um leque de possibilidades e pontos de vistas, os que parecem enxergar tudo menos a mim e, concomitantemente, varrem meus jardins em dois tempos, devastando o que antes era impensável a olho nu. Corri os olhos pelas palavras já escritas e me peguei em contradição: sobre cores, me são de tremenda importância as que eu enxergo frente ao que já não vejo, as luzes que se acendem no infinito quando seu cheiro me invade e os planos inéditos todos em tons pasteis que eu faço sobre trilhar minha vida numa estrada vista a um único olhar. O menino dos meus sonhos é míope e pra me enxergar fecha os olhos.

~ o essencial é invisível aos olhos, juro.

{...} à margem da loucura.

Certas coisas são como a última faixa a entrar num disco, aquela fotografia que não ia fazer parte do álbum, o vestido que você não cogitou usar naquela festa. Há dias em que o despertador se desespera ao seu lado e você apenas adia o despertar; não há motivo algum pra estar de pé, não há banho que lave sua alma nua, não há razão pra ir a lugar algum. Perpassam meus dias uma sensação estranha de que o botão de replay emperrou, uma aquarela em tela única, como os pontos de ligar onde, não importando a ordem, chegamos ao mesmo desenho. Há nos meus dias uma força estranha que me move, que me ergue no terceiro badalar, lava minha alma a seco, me põe a caminhar por entre os carros e me traz de volta à cama, ao sono, aos sonhos. Minha força tem fome de singles improváveis, de elogios indolentes e suspiros solenes.

eu vou na bubuia, eu vou.

Lilith

Minha foto
25 anos de sol em leão. queria voltar ao tempo em que era cool escrever letra de música no perfil / cozinha, escreve, pratica boxe e é jornalista nas horas vagas / acha que "transtornada" é um nome muito bacana para quem tem TDAH, eu tenho.