terça-feira, 11 de janeiro de 2011

encantada

Do galho mais alto daquela árvore seca, minha melodia encerrada em gaiolas testemunhava a entrada daquele homem em minha vida. Abriu meus portões em sobressalto, atravessou a varanda do meu corpo e entrou pela porta da frente com as botas imundas. Deixou pegadas cheirando a leite até o sofá, onde sentou sem cerimônia. Servindo-se de chá e biscoitos, olhou para mim como a uma torta de limão que devoraria num só pedaço. Mas, ao invés disso, deu-se por satisfeito em levar à boca um dedo melado de chantilly. Só então disse-me um 'bom dia' cordial e sem paixão, desses que se dá a quem não se conhece e despejou sob a mesinha de centro trocentas palavras entrada, saladinhas de grão-de-bico, diversos pedidos sobremesa que jamais vão saciar a fome que eu sinto das suas palavras, mas que me fariam ouví-lo falar e falar do vazio enquanto investigo seus olhos deitada no carpete aos seus pés. Mas, se ainda te posso pedir algo, saia pela porta do fundo e só volte quando a tua dor se manter estanque o suficiente para que eu te toque, porque eu tenho sede e todo o meu chão é árido onde tuas mãos tateavam.


quando você me ouvir chorar
tente, não cante, não conte comigo
falo, não calo, não falo
deixo sangrar
- algumas lágrimas bastam pra consolar -
tudo vai mal, tudo.
tudo mudou, não me iludo
e, contudo, é a mesma porta sem trinco,
o mesmo teto e a mesma lua furar nosso zinco
meu amor, tudo em volta está deserto,
tudo certo.

~

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

encantado

O silêncio dentro daquele homem era magnífico. As palavras mudas, altivas e austeras, eram de uma dignidade cega, cobravam de mim um respeito desses que só se dedica a pais severos. Todo o caminho de pedras redondas entre o portão e a soleira daquele corpo eu fiz à ponta dos pés, num Lago dos Cisnes em câmera lenta, como se eu pretendesse que o som dos meus pés contra o chão fosse tal qual canção de ninar aos ouvidos do soldado que ali repousava exausto de incontáveis batalhas. Pulso cerrado, toquei a porta com leveza tamanha que o som que tal gesto produzia pedia licença até mesmo para pedir a licença que o ato de bater na porta significa por convenção. Porém, o meu olhar alardeava sem dó – naquele tom inoportuno e petulante que as sobrancelhas emolduram – que eu arrombaria a porta, para o caso de ninguém abrir. Que eu faria festas nos jardins, bailes sem máscara, que eu cortejaria cada flor, cada espinho, cada pássaro num conluio comigo, para que o nosso desejo de cantar fizesse interferência no teu sono antes mesmo do nosso canto eclodir. Mas, à tua beira, tudo clamava para que eu aprisionasse minha melodia em gaiolas – ao menos enquanto doesse, enquanto sangrasse, enquanto você lambesse as feridas com essa tua língua gilete.

there was a boy
very estrange, enchanted boy
(...)
and then onde day,
one magic day, he passed my way
while we spoke of many things
folls and kings
this I said to him:

the greatest thing you'll ever learn
is just to love and be loved in return


ele não entendeu.

domingo, 2 de janeiro de 2011

libação

{...}

peço ao Ano Novo, aos Deuses do calendário
aos orixás das transformações:

nos livrem do infértil da ninharia
da vaidade minha, desumana, sozinha
nos livrem da ânsia voraz
daquilo que, ao nos aumentar, nos amesquinha
(...)
viva à burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
ABAIXO O ESTÉRIL ARREPENDIMENTO,
a duração inútil dos rancores.
um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:

a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!

~

Elisa Lucinda
.

domingo, 21 de novembro de 2010

para quando você me amar

é tão teu esse meu coração selvagem quanto eu mesma tenho sido tua - em carne, osso, calor e toda aura. não sei o que em mim corre léguas até o teu mundo ou o que em você fecha as janelas enquanto eu faço festa nos jardins. importa apenas os teus comandos se são simples. não me decepciona. faz assim e não diz mais isso. fica. abra. pula o muro. arromba a porta. invada. eu vou bordar em cada centímetro teu o meu nome em fios de ouro porque em meu país já tremula uma bandeira nova com as cores que você escolheu. prometo te amar sempre em recíproca e primeiro até. não me decepciona. faz assim e não diz mais isso. entra. a porta tá aberta. senta. quer uma água? me ama. não desista de mim.

{...}


meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão, o meu som e a minha fúria e essa pressa de viver. e esse jeito de deixar sempre de lado a certeza e arriscar tudo de novo com paixão, andar caminho errado pela simples alegria de ser. meu bem, vem viver comigo,
vem correr perigo.

~

E.C.T.

Teço sonhos para nós dois, recheio com afeto e vontade de não acordar, com convites vermelhos em brasa, com suor de uma noite quente, com a fragilidade das mãos que não resistem ao tempo, do olhos que necessitam de vidros, de cabelos alvos, primogênito, de netos e de tudo o que anseio. Deixo a saudade do passado e transformo no próprio caminho. Levo na bagagem um diário seu para não esquecer nenhum passo, um espírito inundado de esperança, livre de maldade. Busco a sensibilidade para ouvir o vento cavalgar para qualquer lugar. Não importa se você não agarrará as minhas mãos e não virá comigo. O amor tem sempre razão e permanecerei eternamente acorrentado à vontade de permanecer livre. Não importa se você me abraçará forte e pedirá para que eu fique. Eu te encontro no fim da jornada. Não importa se você prometer não esperar e realmente o fizer. Eu tenho toda a natureza a meu favor, pronta para te transportar para onde eu bem entender. Não importa se você recusa as asas que eu tenho para te oferecer. A borboleta sempre escolhe sair do casulo. Não importa se você não quer a minha vida em suas mãos. Mesmo que tivesse, eu tenho tantas outras... tantas para amar-te quando não te amo.

{...} eu não vou desistir de você

estou dividindo com o mundo um amor nosso. para que não falte aos outros. para que eu receba em dobro.

~

domingo, 7 de novembro de 2010

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é, a fonte secou






~

sábado, 11 de setembro de 2010

ah, coração vagabundo...

meu coração é massinha de modelar bem vagabunda. não se aguenta na caixa, vive do calor das mãos pelas quais passa, das novas formas com que estas lhe moldam. ao fim do dia eu o recolho maior: traz consigo, à sua caixa, pedaços de outros corações em tons diversos já quase absortos em seu vermelho encarnado, vermelho urucum. e sinto daqui o cheiro do alvejantes nas roupas manchadas que fingem dar outras formas a outras massas. inútil: meu coração, massinha de modelar bem vagabunda, tinge a vida de quem o ousa tocar. meu coração é brinquedo de criança. é ciranda, fantoche, ioiô, é tesoura sem ponta e muitos papéis por cortar. é gangorra em galho alto e os pés tão longe do chão - de um lado pro outro e do outro, outra vez, para cá. é queda, mertiolate e mais gangorra! porque, bem, meu coração é criança aprendendo a amar. meu coração é balão cheio de gás, menos denso que o ar. é surdo, trompete e cuíca. meu coração é todos os tambores do Pelourinho. é sinfonia de bloco-afro, não sabe ficar quieto, sambar só, não gosta de bossa. meu coração é Salvador em carnaval. é mergulho no mar do Porto em ressaca, é as ruas cheias do centro e seus bailes de máscara, meu corção é fantasia. finge que é meu, finge que é peito, mas no fundo meu coração é alma e quem tem alma não tem paz.

meu coração não se cansa
de ter esperança
de um dia ser tudo o que quer
{...}
meu coração vagabundo
quer guardar o mundo em mim


~



anunciação

sua imagem projetada na minha tela traz sua voz clara e nítida, como se você me falasse aqui ao lado. as tuas letras, formando na tela o que você quer me dizer, formam do lado de cá outra vez a tua voz. meus pés riscam no chão as tuas consoantes, me entrego às vogais e, enquanto reproduzo sons que ouvi tão pouco em verdade, o teu cheiro toma os espaços vazios e os instantes em suspensão. você, no seu canto, estanca o já e torna urgente o que ainda está por vir.



tu vens, tu vens
eu já escuto os teus sinais

na bruma leve das paixões que vêm de dentro, tu vens chegando pra brincar no meu quintal {...} a voz do anjo sussurrou no meu ouvido - e eu não duvido, já escuto os teus sinais - que tu virias numa manhã de domingo, e eu te anuncio nos sinos das catedrais.

~

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

o desejo é um tempo parado


é quando aumenta a rachadura da velha parede, se vira a folha, se pinta um fio branco na cabeleira preta, se endurece o rastro de sorriso no canto dos olhos. eu sei que a viagem é longa
- a voz vai e vem -você ta aí? você ta aí? ei, voce está aí?

VONTADE DE ABRAÇAR O INFINITO'
~

domingo, 22 de agosto de 2010

mais uma canção

sou surda aos vibratos e nada entendo de escalas. em música sinto apenas e hoje sinto tanto a falta da tua voz, das cordas do teu violão, do teu sotaque temperando aquele verso. um pedido de casamento, uma jura de amor todas as manhãs e eu vou dormir antes que acredite. mas, enquanto teu coração não bate uma canção nova aqui bem ao meu lado, ouvirei qualquer voz pra lembrar da tua cantando assim, e eu te diria assim se você caísse de para-quedas em minha casa:

coração de eterno flerte
adoro vêr-te.


~

Lilith

Minha foto
25 anos de sol em leão. queria voltar ao tempo em que era cool escrever letra de música no perfil / cozinha, escreve, pratica boxe e é jornalista nas horas vagas / acha que "transtornada" é um nome muito bacana para quem tem TDAH, eu tenho.