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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Veraneio - um sonho

Sonhei contigo. Mesmo inconsciente, eu sei seguir nosso roteiro: minha chegada, sua percepção, a farsa do não querer, a dúbia certeza de que não posso, nossa roda-gigante, pega-pega, pique-esconde. Apenas o cenário era inédito... um estofado azul marinho, grosseiro e desconfortável, numa sala pequena e comprida, amarela, cheia de olhos em nós. Sua mão segurando a minha, um carinho casto em meu braço esquerdo, meu corpo inteiro ali e o pensamento voando longe, e você sussurrava três elogios, um par de convites e um só pedido: me queira. Acordei ainda com o eco do que você pede e eu, tavez, deseje. Me acostumei tanto a levar nós dois de um jeito bem nosso, bem do jeito que eu quiser, que me assusta a possibilidade de te obedecer. Eu bem que podia te querer e matar um dragão por dia só pra estarmos juntos, seus braços emoldurando meu corpo como gesso tomando a forma do molde, me cercando, gradeando, privando o oxigênio de tocar em mim. Quem sabe eu feche os olhos e te sonhe outra vez, talvez eu te ligue ou você me procure; mas neste ato eu saio de cena. Eu quero te ter, eu não quero ser sua e, se é pra te deixar assim, pra que eu vim, né?


eu não tava dormindo
justo ao contrário {...}



~

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Veraneio - prefácio


Certos versos precedem a percepção de qualquer presença e suprimem, em rimas, lacunas de outras estações. Eu era memória de um dezembro ainda não vivido, era frio de um inverno mornamente congelante, rodeada de um fogo que não esquentava, envolta em lençóis rasgados, eu sentia calor no Polo Norte, tudo em mim desafiava as leis metereológicas quando você chegou. Era maio e chovia. Minto, talvez fosse fevereiro, a lua talvez encadeasse um céu salpicado de estrelas, o sol tavez tivesse estado muito quente durante o dia, eu não sei. Todos os meus sensores de temperatura estavam, como em ligação direta, plugados a uma fonte fria. Eu fiz que não te via. Há um código de ética, por assim dizer, em vidas que andam juntas: perguntas são raras, ligações também, perdões são necessários, fidelidade é esperada. Eu não te esperava chegar. Diria não a mil homens, mil línguas, zilhões de convites. Mas já era maio e {eu} chovia quando você pôde revelar-se. Era água fresca e eu já tinha corrido léguas, era acalanto com essa voz macia e suas rimas bobas. Eu desfilava uma aliança invisivel e meu corpo sem portas precisava de um homem-muro. Você foi interrogação pros meus dogmas, minha revolução eucaristica, o vislumbre dos defeitos do meu amor perfeito, a compravação da nulidez do que é eterno mas não funciona no dia-a-dia. Eu te esperava chegar por todo o inverno pra trazer calor e fresca. Tua língua treinada me convidava à vida, ninguém além de mim poderia recusar, ou entender.

ao Meio: desculpa. Mais uma vez eu te digo que você foi consequencia e não causa, que você faz parte do mundo e não do amor. Mas você me fez feliz e leve, e por isso eu só agradeço
à fonte: te perdôo por te trair.

domingo, 8 de novembro de 2009

Veraneio III

Há neste encontro um roteiro pronto, absurdamente distinto do habitual. Tua chegada, meu eu troféu, meio seu sem ser e a estampa esfinge como em nanquim no teu rosto. Bonito, ainda me surpreende tua desenvoltura, teu efeito palco, teu sorrir sob as luzes, teu olhar ensaiado, teu alvo novo. Rídiculo, me assusta a forma tal que meu ciúme assume, o corpo que reinvento pra te provocar, o cabelo outra vez solto, as pernas outra vez bambas, nuas, loucas e suas - uma outra vez como nunca antes. Minha figura cada vez mais próxima, mais viva, mas límpida, eu não me quis esconder. Permiti aos meus pés a dança em par, os quase-beijos, as meia dúzia de sorrisos e a minha língua - díscipula da tua - te convidava à vida, impossível aceitar. Era eu ou o presente de São Jorge. Era eu, meus nãos, minha meta-vida, ou a vida que se abria inteira. Era ela ou era eu, que é quase nada. Serão ainda muitas canções, serão metades, será você ao meio, será até sempre ou até quando se partir uma corda - outra vez, como nunca antes.

pra me deixar assim,
por que é que você veio?

~

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Veraneio II

Todo espetáculo permite improvisos, todo som é no íntimo um pouco jazz, toda roda abre espaço pr'um samba que reinvente os acordes. Por mais que se pense, ensaie, repita, não entra em nós (hipodermicamente) o conceito do pronto, do único, do impassível a transformações. Volto ao salão dessa vez de pernas nuas, desritmadas, livres ao sabor do som que se forma em vários pulsos, dedos, cordas e cordões. Cai sobre em mim, outra vez, aquele olhar de quem já esperava a vitória na aposta, a minha chegada, o meu pedido a ser decifrado e um não quanto ao 'devorar'. Ele volta ao seu canto e eu às minhas pessoas, minha graça, meus rodeios, meu prender e soltar de cabelos, mas cerveja não há mais. Como também já não há compromisso, nem vontade de mentir sobre horários, mãe ou chaves perdidas. Engulo meus receios enquanto ele se aproxima numa ânsia tranquila, como se me percebesse em mim qualquer distração ou a falta dos aneis, dos riscos na testa, do nome estampado na alma. Não corro dos seus braços, não fujo da sua boca e sua língua, treinada, me convida à vida. Impossível recusar.

Veraneio.

Todos os encontros como um roteiro a se repetir: a minha chegada percebia sem grandes embaraços e um jeito dele me olhar como quem ganha uma aposta, como quem avista um troféu, como se soubesse que chegaríamos eu e meu sorriso esfinge a dizer baixinho e bem devagar 'bom te ver'. Coreografadas, minhas pernas dentro do jeans desobedecendo a física, ora uma no lugar da outra, ora outra, ora uma, ora as duas nas pontas dos pés; as minhas mãos por entre o cabelo a deslizar, libertando, prendendo, pulsando no compasso que ditava a voz dele, os seus dedos tensionando as cordas. Cinema mudo, era entendimento mútuo. Eu rodopiando o salão em acenos, abraços e cortesias - a mulher ideal, como ele diria, 'bonita e bacana de cerveja na mão' - e ele lá do seu canto, observando meus passos, era estátua pro sopro de vida de qualquer mulher real. Lia-se em mim contentamento escrito em tinta fresca, que ainda borra se você tocar, enquanto ele dizia em alto e bons olhos que era eu. Ouvia-se das minhas palmas um orgulho frenético como se eu também dissesse ser ele ali, ser dele ali. E era então minha cabeça afoita visitando desculpas velhas... minha mãe, minhas chaves, o horário, meu compromisso... e eu escapolia dos seus braços como se de molho em sabão. Ele insistia. Língua treinada, rebatia meus argumentos como um convite à vida. Eu negava. E era a minha partida pecebida com leve pesar e um jeito dele de olhar pra longe como quem chega em segundo, como quem perde por décimos, como se soubesse que iríamos eu e meu sorriso esfinge a dizer alto e mui clarito
'nao se atreva a me olhar, rapaz'.

Lilith

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25 anos de sol em leão. queria voltar ao tempo em que era cool escrever letra de música no perfil / cozinha, escreve, pratica boxe e é jornalista nas horas vagas / acha que "transtornada" é um nome muito bacana para quem tem TDAH, eu tenho.