sexta-feira, 27 de junho de 2008

/semresposta

     
          
          
     
- Você me ama?
- Amo.
- Como?
- Não sei, não parei pra pensar.
     
    
     
     
     
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eu não sei como te amo, mas sempre soube o quanto: dois cocos.


La Merde

Estou que é só personagem,
um destes grandes sucessos esquecidos
de um brilhante autor exaurido.
De tanto pintar a cara,
acabou a tinta, acabou-se a tela e,
dos pinceis, acabaram os golpes precisos.
Do oceano de outrora,
não resta água pr'um copo.
/engulo a seco.
A casa está lotada, mas as cortinas
se manterão cerradas esta noite.
Que se apaguem todos os holofotes.

Não há mais nada pra arte imitar.
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quinta-feira, 26 de junho de 2008

-
mas não tem nada não.
eu bem que me conheço
sei que um dia viro a mesa
e mudo de endereço

(8)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Opção três

Lis, senta aqui. Quero te ensinar umas coisas. Nada sobre cegonhas ou bala de estranhos. Não ainda.Hoje quero te falar dos sonhos.

- De quando eu fecho os olhos?

Não, minha flor. Dos sonhos grandes. De quando a gente acorda.É que, quando a gente cresce, os caminhos ficam difíceis, com buracos e lobos e esquinas.

- Você me ajuda, mamãe?

Hmhum. Mas a escolha é sempre sua. A vovó, por exemplo, quando me mandou de Alémar pra capital, esperava que eu escolhesse o [caminho] direito. Eu escolhi passar fome...

- Ó, você passou?

Linguagem figurada, um dia você aprende.Enfim. Aprenda logo que, quando a se quer de verdade,a gente aprende a plantar, colher e cozinhar. Mamãe aprendeu. Aí eu descobri que precisava encher o prato com outras coisas.

- Verdurinhas?

É. E palmas também. Mamãe rodou o mundo!Experimentei outros sabores: caviar, enlatados, pão bolorento.Com as coisas amargas, aprendi a guardar doces pra depois das festas.E são essas as coisas que quero te mostrar...Quero que você devore bons livros, chicos e caetanos.Quero que você conheça o gosto do vento da Escola de Agronomia.Quero que você saiba que arte alimenta.Quero que você não esqueça que a alma do mundo ajuda os que sonham de verdade.

- E com que você sonhava, mamãe?

Com você, Lis.
          
          
             

-

-
o amor é graça.
ele dá e passa.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

VIII / X

O principizinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela.
Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.
       
       
Não quero feri-los com minhas palavras,
porém é bem verdade o que aqui conto.
Venho aos pedaços, como se dividida em sílabas, informá-los que o amor morre!
E, digo mais, isto é indolor.
Como uma perna amputada, que já não faz mais parte do corpo,
enfiar facas em amor morto não dói!
Porém, vê-lo necrosar célula por célula, eis o que não suporto.
E - pra não dizer que não falei em Chico -
doídas são as fisgadas no membro que já foi decepado.
Meu pequeno partiu
/cansou dos meus vícios.
Foi correr universo, deixar pegadas na poeira de outra estrela,
foi cativar.
Foi, pra estar longe.
Sei da escolha e dos motivos, mas, egoísta e fútil,
ainda peço que não vá, que não durma.
Porque tenho medo de não estar em um de seus sonhos.
Tenho medo que, ao abrir a porta,
ele não me reconheça.
Tenho medo de sufocá-lo.
Tenho medo que ele aprenda a respirar sem mim.
       
       
Eu fui uma tola. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.
É claro que eu te amo.
[...]
Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora.
Pois ela não queria que ele a visse chorar.
Era uma flor muito orgulhosa.
       
       

sábado, 7 de junho de 2008

être comme la rivière quoi coule II

Seguindo um curso natural, quando um rio desemboca no mar, outro aflora em algum lugar. E vem d'um primeiro rio, que evapora, a água que, depois, preciptará e transformará um córrego raso numa corredeira. Não ousaria tanto. É este texto um mero afluente de um que veio antes e que ainda será perene quando, nos tempos de estio, isto aqui for só uma poça lamacenta. Posto que palavras são só gotas d'água, desemboca aqui um texto sobre o que aprendi seguindo à tua margem. Sobre contornar pedras e ultrapassá-las, pois és tu maior que estas. Sobre ser, pois somos, caminhos de barcos. Sobre vê-los passar com suas velas, sobre naufrágios. Sobre ser sobre-humano. Saber seguir, fluir, deixar seguir, reter, amar. Um dia, quando da morte de Narciso, águas doces tornaram-se um cântaro de lágrimas salgadas. Ao ser interpelado pelas oréiades sobre a beleza do tal moço, o rio balbuciou: Nunca tinha percebido que ele era belo ... todas as vezes que ele se debruçava sobre as minhas margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza refletida.


Num conta-gotas, eis aqui cada pedaço de víscera. É tudo que sinto.

História de Uma Gata

Da infância, não trago na memória quadros sobre prateleiras. Lembro só do chão de terra, dos joelhos ralados, de quantas vezes mamãe me trouxe - pelos cabelos - à realidade: eu era uma mocinha. Da janela, via os moleques sem camisa, jogavam bola na lama; queria ser como eles, eu queria fazer pipi de pé. Consta lá no manual, entre os possíveis defeitos, qualquer coisa sobre Complexo de Castração, é normal entre bonecas. No espelho, a porcelana tomava forma. Como é cruel a arte de se moldar uma dama! Começo a gostar dos vestidos, do carmim, dos garotos. Mas nunca me acostumei com soutiens. Lembro quando andávamos pelas ruas que ainda estão a ladrilhar, eu e outra princesa de Além Mar. Ríamos dos contos, das fadas, debochávamos dessa fábrica de Amélias em série. Caímos da prateleira. Descobrindo vestidos mais curtos, carmins mais rubros, garotos mais tontos. Descobri Hollywood. Água Oxigenada. Souborne. Avalon ~ . Soutien com enchimento. Conciliando meu lugar na revolução e um lugar na estante, descobri Ra i sa. Veio o primeiro príncipe e ele era sapo. O segundo também. Lá pelas tantas me apareceu um príncipe beeem príncipe. Descobri que não gosto da realeza. Gostei de um bandido, mas este se foi e nada se manteve erguido pelo caminho que ele abriu. Descobri a desilusão. Alimentada. Acariciada. Aliciada. Acostumada. Fico em casa, não tomo vento. Da janela, vejo os meninos e os violões. Descobri, e reconheço felinos. À milhas de Além Mar, descobri a solidão. Mesmo com a força bruta, freira ou puta, toda fêmea é uma mulher. Reinando em tanques, inflamando palanques, porras loucas, filhas de outras, o buraco ainda é no mesmo lugar. Pagu é mulher e quer ser amada. Toda mulher sonha com o clássico final feliz em Paris. Toda mulher quer ser salva. Eu sou mulher.


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Créditos ao 'Manual TinTin', à Dandara e Carrie.

domingo, 1 de junho de 2008

Se te queres matar, mata-te.

A Santa cantava alto no meu radinho, abafando os gritos de dor da vizinhança. Fui até a varanda, na rua corriam crianças, os carros chegavam com as sirenes nas alturas, a rua parava pra ver, o porteiro me gritava lá no play. Chamei o elevador, ele não veio. Desci correndo as escadas enquanto amarrava o vestido. Corri entre os carros e, debruçada no para-peito da garagem, me arrependi de ter estado ali. Havia um homem estendido no chão do prédio em frente. Miolos, sangue, lágrimas ... tudo escorrendo, sujando as pessoas que ali choravam, que prestavam socorro e aquelas que pararam pra ver /é tão cruel a curiosidade humana. Eu via a viúva implorar aos céus, ela pedia que o tempo voltasse. Eu via alguém falar de uma criança - era aniversário do menino. Eu via o pessoal da igreja ao lado falar em heresia. Eu via a polícia procurando culpados ou certificando a ausência destes. Acidente? Proposital? E eu me via solta em perguntas que ninguém ira responder. Quantas vezes ela disse não viver sem ele enquanto ele ainda vivia? Quantos aniversários do filho ele não passou na janela olhando lá pra baixo? Quanta dor leva alguém a se render assim? Quantas vezes Deus parou pra confortá-lo? Quem tem culpar em querer morrer? Eu, olhando aquele homem morto, só queria falar em hipocrisia. Este homem, com nome e família, teve a coragem pra fazer aquilo que todos nós planejamos durante o banho.
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Vivam e ouçam Álvares de Campos na voz de Autran.

     

Morrem,
no mesmo lugar, pelo mesmo veneno,
um prícipe e uma rainha.
     
     
     
     
     
     
     
     
     
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Vão dizer que são tolices, eles não sabem da dor.
Não há em mim o que queira estar longe de você
... só não aceito não te fazer feliz.

Lilith

Minha foto
25 anos de sol em leão. queria voltar ao tempo em que era cool escrever letra de música no perfil / cozinha, escreve, pratica boxe e é jornalista nas horas vagas / acha que "transtornada" é um nome muito bacana para quem tem TDAH, eu tenho.