Da infância, não trago na memória quadros sobre prateleiras. Lembro só do chão de terra, dos joelhos ralados, de quantas vezes mamãe me trouxe - pelos cabelos - à realidade: eu era uma mocinha. Da janela, via os moleques sem camisa, jogavam bola na lama; queria ser como eles, eu queria fazer pipi de pé. Consta lá no manual, entre os possíveis defeitos, qualquer coisa sobre Complexo de Castração, é normal entre bonecas. No espelho, a porcelana tomava forma. Como é cruel a arte de se moldar uma dama! Começo a gostar dos vestidos, do carmim, dos garotos. Mas nunca me acostumei com soutiens. Lembro quando andávamos pelas ruas que ainda estão a ladrilhar, eu e outra princesa de Além Mar. Ríamos dos contos, das fadas, debochávamos dessa fábrica de Amélias em série. Caímos da prateleira. Descobrindo vestidos mais curtos, carmins mais rubros, garotos mais tontos. Descobri Hollywood. Água Oxigenada. Souborne. Avalon ~ . Soutien com enchimento. Conciliando meu lugar na revolução e um lugar na estante, descobri Ra i sa. Veio o primeiro príncipe e ele era sapo. O segundo também. Lá pelas tantas me apareceu um príncipe beeem príncipe. Descobri que não gosto da realeza. Gostei de um bandido, mas este se foi e nada se manteve erguido pelo caminho que ele abriu. Descobri a desilusão. Alimentada. Acariciada. Aliciada. Acostumada. Fico em casa, não tomo vento. Da janela, vejo os meninos e os violões. Descobri, e reconheço felinos. À milhas de Além Mar, descobri a solidão. Mesmo com a força bruta, freira ou puta, toda fêmea é uma mulher. Reinando em tanques, inflamando palanques, porras loucas, filhas de outras, o buraco ainda é no mesmo lugar. Pagu é mulher e quer ser amada. Toda mulher sonha com o clássico final feliz em Paris. Toda mulher quer ser salva. Eu sou mulher.
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Créditos ao 'Manual TinTin', à Dandara e Carrie.